Exposições simultâneas no Art Institute of Chicago e na Punta della Dogana em Veneza enquadram as fases inicial e tardia da diversificada carreira da artista brasileira Lygia Pape.

Lygia Pape, Ttéia 1, C (2003–2017). Vista da exposição: Exposição coletiva, Icônes, Punta della Dogana, Veneza (2 de abril–26 de novembro de 2023). Cortesia Projeto Lygia Pape.
Em Veneza, a exposição coletiva Icônes (2 de abril–26 de novembro de 2023) apresenta uma escultura de Pape de seus últimos anos. Uma apresentação solo simultânea em Chicago, Tecelares (11 de fevereiro–5 de junho de 2023) oferece uma visão abrangente da série ‘Tecelares’ (1952–1960), xilogravuras que contextualizam o trabalho que a artista desenvolveria quase 50 anos depois.
Pape nasceu entre as guerras em Nova Friburgo, Brasil, um pequeno município montanhoso. Embora tenha concluído cursos superiores em filosofia, iniciou estudos artísticos informais no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro na década de 1950.
Ali, no contexto da rápida industrialização do Brasil pós-guerra, Pape conectou-se com outros artistas como Hélio Oiticica e Ivan Serpa. Em 1954, os três—junto com Aluisio Carvão e Lygia Clark—cofundaram o Grupo Frente. Liderado por Serpa, o grupo formou uma visão da arte brasileira que rejeitava a figuração e a política explícita em favor de princípios racionalistas, desenvolvendo uma abordagem que elimina gestos pessoais pela aplicação de técnicas industriais rigorosas.
O senso de movimento encontrado em ‘Tecelares’ se tornaria parte integral das esculturas e obras participativas posteriores de Pape. O ritmo visual alcança sua forma final em Ttéia 1, C (2003–2017), que ocupa o centro do átrio da Punta della Dogana. Os fios dourados da instalação são esticados entre um pedestal baixo e o teto.
Dependendo da luz ambiente e dos movimentos dos espectadores, linhas cintilantes revelam-se individualmente ou todas de uma vez antes de desaparecerem no fundo. Cascateando do teto, elas delineiam conjuntos de quadrados no chão, lembrando os raios da Statua della Fortuna (Estátua da Fortuna) no topo do edifício do século XVII. Conforme a veleta da Fortuna gira, os raios também podem parecer girar.
Em contraposição à utopia objetiva do Grupo Frente, na qual a forma artesanal mais pura não deixa traço da mão, Pape tornou-se parte do movimento Neo-Concreto em 1959.
De modo geral, os Neo-Concretistas levaram a abstração geométrica do Grupo Frente a uma subjetividade que incentivava que o significado e a poesia permeassem a obra. A poesia dos ‘Tecelares’, que se tornou mais ousada à medida que Pape ganhava experiência e confiança, reside na relação entre as linhas onduladas do veios da madeira e as arestas nítidas dos blocos de impressão.
Em uma gravura monocromática de 1959, com círculos e quadrados caindo, as formas impressas lembram tanto projetos feitos pelo homem—como planos urbanos—quanto as menores partículas que constituem o próprio ser humano.
Cada Tecelar (Tecelagem) constrói o que Pape descreveu uma vez como ‘espaço magnetizado’, no qual a área negativa de uma gravura permanece ativa como plano de forma, cor e movimento que integra e ativa as formas ao redor.
Em um Tecelar (Tecelagem) de 1955, os espaços entre os conjuntos de triângulos formados por linhas horizontais tornam-se triângulos por si mesmos. Em Ttéia 1, C, o espaço negativo entre as linhas também se transforma em uma vibração energética, sendo ao mesmo tempo parte de um plano sólido e um elemento discreto.
As primeiras xilogravuras de Pape nem sempre eram chamadas de ‘Tecelares’. Antes do final da década de 1970, eram apresentadas simplesmente como Xilogravuras. Tomando o português tecer, que significa ‘entrelaçar’, Pape inventou o termo Tecelares (Tecelagens) para aludir à sua abordagem tátil da gravura.
A mudança reflete o reconhecimento de Pape sobre a ressonância das gravuras ‘Tecelares’ em seu trabalho posterior, muitas das quais entrelaçam pequenas unidades em um todo multifacetado. Divisor (1968), uma das performances mais conhecidas de Pape, alcançou isso com corpos humanos.
Os participantes passaram suas cabeças por buracos em um grande tecido branco e marcharam pelas ruas do Rio de Janeiro, parecendo uma entidade com muitas cabeças—uma visualização da sociedade como indivíduos entrelaçados em um determinado espaço.
Pape trabalhou com arame metálico e fios em esculturas posteriores como Ttéia 1, C, nas quais finos raios dourados se derramam em ângulos do teto até o chão. Embora construídas mais de 40 anos após as gravuras Tecelar da década de 50, ainda existe uma linha de movimento transmitida em cada fio e nos halos de luz efêmera que eles coletivamente formam.






